quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Como virar presidente de um banco mesmo sendo mulher

Ela tem 52 anos, formou-se em Física e é presidente, no Brasil, do sul-africano Standard Bank. Nada mal para quem virou motoqueira, aos 18 anos, porque só conseguiu emprestar dinheiro suficiente para uma moto. “Não dava para comprar um carro”, ri a executiva Andrea Menezes. Inquieta e movida por ciclos de entusiasmo, segundo ela própria, o desafio de Andrea nos dois últimos anos tem sido enxugar a operação que comanda. O banco, que já teve planos ambiciosos para os países emergentes, voltou-se para o continente africano. “Desde 2012, estou cortando pessoas, limpando balanços e reestruturando a operação no Brasil. É um trabalho difícil, desafiador, mas mas eu nunca gostei mesmo de estar na zona de conforto.”
Como uma física vira presidente do banco?
Na Física, desenvolvemos muito o raciocínio lógico, o encadeamento dos processos. Foi por causa da Física que fui trabalhar na área de sistemas, de TI, do banco J.P. Morgan. Em algum momento, me ofereceram uma vaga de trader, uma coisa completamente diferente do que eu vinha fazendo. Mas como adoro desafios, topei. Ser trader é como jogar pôquer. Você não precisa se preocupar com funcionários, em liderar. É você com você mesma. Até hoje, sinto falta da surpresa, adrenalina... Depois, fui me desenvolvendo e cheguei ao Standard há 7 anos.
Como você aprendeu a liderar, já que não fazia isso?
Eu odiava liderança. Tenho um perfil muito agressivo e sou auto-motivável. Então, liderar realmente foi um aprendizado que tomei gosto porque era um ciclo novo na minha vida. Eu vivo em função de ciclos de 5 a 10 anos no trabalho... Além disso, eu já tinha me tornado mãe de dois meninos. E quem é mãe é líder. Aprende que uma pessoa é diferente da outra e que não dá para tratá-las da mesma maneira.
Qual o seu próximo ciclo?
Eu estou fazendo um curso de governança corporativa porque acredito que vamos precisar de mulheres competentes com uma visão mais corporativa e financeira. Estou querendo mostrar, como projeto pessoal, que mulheres e números combinam. É uma causa que estou tentando entender para saber como ajudar.
Você sempre se envolveu com questões de gênero?
Não, de jeito nenhum. Eu odiava tudo isso, achava que era uma coisa de vitimização, de mulherzinha. Quando fui trader, o J.P. Morgan desenvolveu um projeto sobre diversidade. Eu não consegui, naquela época, entender a importância disso. Eu achava que estava gastando um tempo precioso com coisas irrelevantes. Mudei de visão radicalmente há 3 anos, quando participei do primeiro Women’s Fórum Brazil. Vi que, embora nunca tivesse sentido nenhuma dificuldade por ser mulher, na minha carreira, outras pessoas poderiam sentir diferente. Eu fui criada numa família de duas meninas e um menino. Não tinha distinção de gênero em casa. Depois, sempre me interessei por coisas de meninos. Jogava futebol, por exemplo. Mas, agora, como eu disse, minha visão do assunto é outra.
Qual é?
Eu tenho 52 anos, casei duas vezes com o mesmo marido, tive dois filhos com licença-maternidade e tudo. Acho que tive sorte e que tenho um jeito, uma maneira, que se encaixa bem no universo masculino. Mas me conscientizei de que as histórias das mulheres são diversas. Quando tive meus filhos, por exemplo, tinha pouco dinheiro e a necessidade criava condições. Eu nunca tive espaço para ter dúvidas do tipo “será que devo parar de trabalhar para cuidar dos meus filhos?”. O jeito era trabalhar, criar os filhos e ponto. Apostei na qualidade do tempo e numa caixa enorme de jogos que tinha em casa e mandei ver. Mas a partir dos Fóruns que venho frequentando, percebo que cada mulher deve ter o direito de fazer suas escolhas. E que esse meu jeito, muito destemido, facilitou minha carreira mas não pode ser uma receita que aplicamos em outros estilos de mulheres. Precisamos mostrar que é possível ter carreira e família. E quando não for possível, porque a mulher escolhe ficar em casa, a sociedade precisa estar preparada para reabsorvê-la quando ela quiser voltar.
Fonte: Yahoo Mulher.

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